Como e por que usar um gennaker

A maior parte dos barcos de cruzeiro (e todos os de regata) foi projetado para fazer um contravento rápido, simples e seguro. É esta, aliás, a razão pela qual quase todos esses barcos apresentam a clássica combinação de armação em sloop (genoa e grande), quilha barbatana e leme separado. Cheguei a chamar essa concepção de "trio ternura" pelo grande sucesso que faz e, também, porque é algo que já vai ficando superado. Não cabe aqui entrar em detalhes sobre as vantagens e desvantagens apresentadas pelo "trio ternura" quando comparado com outros projetos de cruzeiro e regata. O fato é que ele reinou soberano (nas duas finalidades) por pelo menos seis décadas e só nos últimos anos começou a ser seriamente questionado. 


Acontece que tanto a armação em sloop, com velas estreitas e altas, como a quilha e o leme foram desenhados tendo por objetivo uma orça com 30 graus de aparente ou menos. Providos de boas velas quase todos os barcos com essa concepção orçam bastante bem (25-30 graus). Entretanto, as velas perdem muita eficiência quando se entra no través. A genoa é particularmente afetada e a velocidade por vezes chega a diminuir. 

Com o gennaker no través, a escota é levada diretamente a um moitão quase à popa (B), seguindo daí para a catraca. O cabo da amura passa por um moitão à proa (A) e segue para um cunho. Note-se que a amura vai baixa, quase encostada ao convés. O tope (C) também é levado quase até a polia da adriça. No lado direito da figura o gennaker no través mostra a amura alta e a escota passando por uma patesca ou um barber haul que modifica seu ponto de atuação no convés (D). O tope também é levado um pouco mais solto 

Nessas hora um barco de regata armado em sloop já levantou um spinnaker e recuperou o desempenho. O spinnaker leva facilmente o barco à sua velocidade limite de casco e, havendo condições de planeio, inicia a planada sem muita dificuldade. É, no entanto, uma vela de uso mais difícil e limitada quase exclusivamente às regatas. Além da grande área, o spi demanda um pau bastante longo e pesado, operado com amantilho, burro etc. O seu uso eficiente está, em geral, fora do alcance das tripulações de cruzeiro. Há mais de 20 anos surgiu no mercado uma vela alternativa para ventos folgados. Ela foi apelidada de gennaker e podia ser operada sem pau. 



Desde a sua criação, no fim dos anos 70, o gennaker já se apresentava como um híbrido de spinnaker simétrico com genoa. Chegou a ser içado com o tope preso ao estai de proa, mas, com o advento dos enroladores, passou a subir livre, como os spinnakers. A escota da amura passava por um moitão bem à proa e logo se prendia a um cunho, por vezes o mesmo de amarração do barco. A outra escota (do punho de escota) era levada até quase a ré do barco e ali fazia o percurso que faz uma escota de spi convencional. 


Nos primeiros tempos havia controvérsias sobre a forma de trocar de amuras; mais tarde um método se impôs, como se verá adiante. O gennaker moderno vem ganhando eficiência e facilidade de manejo, sendo hoje a melhor alternativa para cruzeiro e obtendo crescente sucesso nas regatas. 


Amura no nível da parte superior do púlpito. A partir de 120º de aparente pode ser preciso passar a escota por uma patesca 

Outro dia um cliente me fez uma série de perguntas, que acredito possam ser questionamentos também dos leitores. 

a) Tenho uma vela gennaker em meu Velamar 33. No local onde está o barco, já cansei de perguntar como usá-la. Em oportunidades distintas duas pessoas que velejaram comigo usaram a vela de forma diferente. Gostaria de saber como armá-la? Ela passa por dentro ou fora do guarda mancebo? É presa como a genoa no pé do estai de proa e caçada na catraca? 

A vela arma toda por fora do barco, inclusive na proa. Isso já indica que o cabo que vai amarrado ao ilhós da amura da vela deve (idealmente) passar por um moitão tão avante do barco quanto for tecnicamente possível colocá-lo. Voltaremos a isso mais abaixo. 


Ela não é amurada como uma genoa. Ata-se um cabo ao punho de amura da vela e é ele que passa por um moitão avante do estai, tão para a frente quanto possível. Esse cabo controla a altura do punho de amura. O controle pode ser feito do cockpit mas não é imperativo. O cabo da amura pode morrer num cunho de amarração da proa. A força raramente é de ordem a impedir o controle sem uma catraca, o importante é que o cabo seja regulável, pois o punho de amura trabalha com alturas muito diferentes entre o través forçado e a alheta folgada. Logo veremos porquê. 

b) Exige algum equipamento particular para operar (moitões, etc.) ou só cabos armados como ocorre com a genoa? 

Indico duas escotas com o dobro do comprimento do barco cada uma e o cabo da amura (cujo comprimento final depende de onde ele seja regulado). A escota vai quase sempre exigir catraca num veleiro 33 armado ao tope. Num barco assim um gennaker moderno alcança 85 m2. A escota passa por um moitão quase na popa do barco antes de ir para a catraca. No vento muito folgado (alheta, alheta folgada) pode ser preciso colocar no convés uma patesca (moitão que abre lateralmente) a meia nau, perto da borda, e nela forçar a passagem da escota. Essa patesca faz o papel de um "barber haul" e impede a valuma da vela de "abrir" demais no tope, o que tiraria sustentação da gennaker em ventos bem folgados. 

Resumindo as regulagens: 

(1) No través a testa da gennaker vai bem caçada, com o punho de amura quase encostando-se à proa pelo lado de fora do púlpito. O quanto ele abaixa depende do ângulo do vento aparente, do tamanho da testa da vela e do desenho do gennaker. Encontrar a altura certa exige prática. A escota, por outro lado, passa direto no moitão perto da popa, dá duas ou três voltas na catraca e vem na mão do tripulante. 


(2) Nos ventos mais folgados o punho de amura vai subindo paulatinamente. A foto mostra o Delta 26 modificado "Aventureiro" com um gennaker. O barco está de alheta. Note-se a amura no nível da parte superior do púlpito. A partir de 120 graus de aparente pode ser preciso passar a escota por uma patesca. Com mais de 120 graus a amura trabalha bem alta e a escota muito solta. É preciso sutileza e habilidade pois o gennaker bem regulado tem que ir "rodando" pela frente do barco, como se quisesse passar para barlavento. De fato, a partir de 140 graus de aparente, ele chega a armar parcialmente para barlavento. E aí é que ele está bem armado pois foge da sombra de vento do grande. 


Aprender a regular o gennaker pode exigir um professor, mas uma boa capacidade de observação e alguma leitura também são bons mestres. É evidente que o gennaker se comporta do jeito que descrevi se for bem desenhado, além de bem utilizado. Gennakers muito antigos ou mal desenhados podem decepcionar em ventos muito folgados (acima de 120 graus de aparente). 

c) Em quais tipos de vento posso usar o gennaker (orça, través, alheta, popa rasa)? 
Fora o popa rasa (que o próprio desenho do barco desaconselha), o gennaker pode ser usado de 70 graus de aparente até 140 ou mesmo 150 graus. O limite mínimo muda com o desenho do gennaker e com a velocidade do vento. Tentar um través muito forçado com um gennaker muito grande e vento fresco é atravessada na certa. Para essas condições existem gennakers mais chatos, menores e de material mais pesado. O importante é que um gennaker moderno é capaz de fazer o barco arribado andar muito bem; e isso é fundamental em cruzeiro. 

d) Por que ninguém usa gennaker em regatas? 
Usa-se gennaker em regatas e aos montões, mas aqui no Brasil, ainda pouco. Em parte porque estamos atrasadinhos, em parte porque a maioria dos gennakers ainda é de uma geração mais antiga, pouco eficiente nos ventos folgados. Mesmos assim já tem gente usando, em várias categorias. Lá fora há classes que só usam gennakers, tendo abolido completamente os simétricos. Boa parte dos barcos de oceano de regata já usa os dois tipos, com as condições de vento e mar definindo a escolha. 

e) Estou pensando em usar esta vela em uma determinada regata, quando estarei com uma tripulação pouco experiente. Ela substituiria o balão, porque pelo visto é mais fácil de armar e operar. Será que dá certo? 
Se for um gennaker bom, o seu uso poderá ser mais simples para uma tripulação pouco experiente. Mas para tirar real proveito é mais do que aconselhável treinar bastante com ele nas semanas anteriores à regata. Se você tiver um piloto automático, ligue-o antes de subir o gennaker e novamente antes de arriá-lo. Arrie o gennaker com vento bem folgado e tome cuidado para o destorcedor do enrolador de genoa (se você tiver um) não agarrar na adriça do gennaker. De resto, tenha com a adriça os mesmo cuidados que se tem com uma adriça de spi simétrico. 

f) E o gybe? 
Havia forte controvérsia sobre a manobra do gybe, mas agora já parece haver consenso. O que se faz é levar o barco até o popa rasa e "embandeirar" o gennaker, isto é, folgar tanto a escota que a vela virtualmente paneje para a frente do barco. Vai-se então tirando o barco do popa e caçando-se a escota contrária. Para isso é fundamental que as escotas sejam longas (duas vezes o comprimento do barco) e não absorvam muita água (pois podem roçar na água durante a manobra). 

g) E o abafador, também chamado de snuffer ou de camisinha, quando é útil? 
Em barcos muito grandes, com gennakers acima dos 120 m2, um abafador se impõe. A manobra de embandeirar para o gybe, por exemplo, se torna problemática com tanto pano. O recomendável, nesses casos, é abafar o gennaker, dar o gybe e desabafar a vela no outro bordo. 

Conclusão: 

Podemos dizer que hoje o gennaker é mais simples de se usar que o spinnaker simétrico. Mas também tem seus segredos. A internet apresenta sites que falam do assunto, mas sempre em outras línguas. Esperamos que estas poucas dicas já possam ser úteis aos leitores pouco familiarizados com o jargão técnico nas línguas estrangeiras.

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