A orça na vela de cruzeiro

Sempre que o assunto é Vela de cruzeiro ouço a frase: " Meu barco não precisa fazer boa orça. Prefiro andar mais "solto" ( arribado ). O barco aderna menos, a família não reclama e chego onde quero do mesmo jeito." essa frase, com a qual muitos leitores provavelmente concordarão, é perigosamente falsa. Ela induz quem nela acredita a velejar de forma ineficaz e pode colocar a embarcação e a vida dos tripulantes em risco. 

 
Vamos aos porquês: 
 
1. Andando arribado eu aderno menos. Essa afirmação é verdadeira apenas em parte. Devemos considerar duas vertenes: 
 
a ). Por um lado, velas com bom formato certamente podem andar mais orçadas sem adernar tanto assim o barco. Basta que se tenha boas adriças, boas escotas e equipamento de qualidade para manter sempre as velas bem reguladas. É impressionante o que velas deformadas adernam o barco sem fazê-lo orçar decentemente. 
 
Por outro lado, quando se anda um pouco mais arribado dá-se mais velocidade ao barco. Com isso aumenta o vento aparente e aumenta também a força gerada pelas velas. Quem tem o hábito de velejar sabe que "soltar um pouquinho" o barco ( quando se "sangra" a boa de contravento, por exemplo ) faz até com que se veleje mais adernado. Portanto, o pouquinho de que falam os cruzeiristas ou não é tão pouquinho assim ou o barco acaba adernando quanto antes. 
 
2. No parágrafo acima vimos que é preciso ter boas velas, bem reguladas ou então andar bem pouco orçado para se evitar que o barco aderne. Suponhamos então que, ao invés de orçamos a 26 graus com o vento aparente ( caso I na figura acima ) a gente opte por andar mais arribado, fazendo 40 graus com o vento aparente ( caso 2 ). Esses números representam valores observados em barcos de boa orça e em barcos de cruzeiro que velejam dentro dos príncipios propostos pela frase que abre este texto. Pode-se observar o seguinte: 
 
a ). Fazendo 26 graus com o vento aparente esse barco hipotético estaria navegando a cerca de 45 graus com o vento real a uma velocidade Vb1. A projeção desse vetor velocidade sobre a linha da direção do vento é a chamada VMG. Quanto maior a VMG, mais eficientemente o barco está fazendo o seu contravento. Esse nosso primeiro barco está com VMG1 ( em azul ). 
 
b ). Outro barco igual, com velas mais barrigudas e timoneiro menos atento, está velejando com vento aparente de 40 graus. A velocidade do barco é bem maior, mas o ângulo que ele faz com o vento salta para 60 graus. A projeção dessa velocidade maior sobre a direção do vento real é, novamente, a VMG do barco (VMG2). 
 
Desenho e prática mostram que VMG2 é menor que VMG1. Isso significa que, a despeito da maior velocidade desenvolvida pelo segundo barco, ele vai progredir mais lentamente no contravento, pois sua VMG é menor do que a VMG do barco que optou por velejar corretamente orçado. 
 
Confrontado com esta informação, o nosso cruzeirista distraído dirá: " E daí ? Chego mais devagar ao destino, admito, mas chego do mesmo jeito ". Erra novamente, e por mais uma razão. Primeiramente, ao ser obrigado a singrar um maior número de milhas e a cambar um maior número de vezes, o nosso distraído cruzeirista tanto pode chegar sem sustos quanto enfrentar percalços pelo caminho ( outras embarcações, redes de pesca, bancos de areia, etc ). Em segundo lugar, por andar mais velozmente o nosso cruzeirista vai bater mais violentamente contra as ondas, o que reduz justamente o conforto que ele buscava. Dependendo do vento a velejada vai ser molhada e sacolejante. Finalmente, se houver corrente contrária, a redução no VMG será ainda mais drástica e ele corre o risco de bordejar por horas a fio sem perceber progressos e perigando não chegar ao seu destino. 
 
É evidente que muitos velejadores evitam o contravento. O presente exto é feito para velejadores que vez por outra fazem percursos mais longos de contravento, como Angra-Rio ou Rio-Vitória. Para quem ainda não abriu mão de belos destinos apenas por estarem eles a barlavento recomendo a seguinte estratégia: 
 
-- Revisar as velas de contravento de modo que elas possam orçar com eficiência a 30 graus de vento aparente ou menos. 
 
-- Rizar o garnde e reduzir a área da genoa sempre que a simples regulagem das velas e da mastreação não for suficiente para controlar o grau de adernamento do barco. Barco com excesso de pano orça mal. 
 
3. Contar com uma genoa III do tipo "Solent" para fazer contravento acima de 20 nós. Essa vela trabalha pela frente do mastro e com as escotas por dentro dos brandais. Em geral são necessários pequenos trilhos no convés ou na cabine, a bombordo e boreste do mastro. A "Solent Jib" é uma vela fundamental para qualquer cruzeirista que queira subir com conforto e segurança a costa brasileira. Com ela qualquer barco é capaz de orçar facilmente com o aparente a 25-30 graus, em ventos médios, mantendo uma velocidade de casco baixa e um VMG muito elevado. O barco se manterá mais em pé e mais seco e chegará mais rapidamente ao destino. 
 
4. Contar com adriças de grande qualidade, stoppers perfeitamente funcionais e escotas decentes. A qualidade das adriças tem particular influência no desempenho de contravento, a despeito da pouca importância que o velejador de cruzeiro lhes dá.

Na veleria Cognac, que é com certeza,  uma das velerias de maior tradição no Brasil e na américa do sul, produzimos velas com cortes modernos proporcionando ótimo desempenho para veleiros monotipos e oceanos de cruzeiros e regatas.

Na veleira Cognac realizamos reparos e em todos os tipos de vela, capas e acessórios. As velas de dacron velhas e "barrigudas" são reparadas com o intuito de garantir uma sobrevida, com ajustes na testa, valuma, esteira, poídos, macarrão e slides.

Na veleria Cognac fazemos sob medida capas para enroladores de genoa, bimini, lazy-jack, capas para o barco, morcegos, sacos de vela, sacos de balão, saco tartaruga, toldos e muitos outros acessórios para seu veleiro.