Abacate e a vela de cruzeiro

Muitos velejadores me pedem para lhes dizer qual o maior avanço na confecção de velas nos últimos tempos. Imagino que a maioria espera que eu lhes diga que foi a construção computadorizada de velas. Ficam decepcionados quando digo que o maior avanço foi na área têxtil e se impressionam ao saber que, na minha opinião, as velerias do século XX não trouxeram grandes avanços na fabricação de velas. A história é longa. O episódio do abacate e do velejador é bem brasileiro e pode ser contado neste espaço. 

Aqui na região do Rio de Janeiro os abacateiros já mostram frutos quase maduros. Digamos que o leitor compre um belo abacate e, com hábitos brasileiros corte-o ao meio, tire o caroço, encha o vazio com açucar e se delicie com a "fruta mais doce do mundo". Depois de terminado o banquete ele terá duas meias cascas que o leitor pode pousar sobre a mesa e examinar com cuidado. 
 
Elas se parecerão muito com as duas metades do abacate logo que ele foi cortado. Na verdade, darão a impressão de ser idênticas. No entanto não é possível tomar as suas metades e as juntar de modo a recompor o visual do abacate. Ora é a metade que fica um pouco oval, ora é outra, e as metades não mais se encaixam como o fariam quando a fruta ainda as preenchia. 
 
O leitor há de concordar comigo mas vai se perguntar: "E o que tem isso a ver com velas cortadas por computador ? " Eu respondo: "Tudo". Vejamos porquê: 
 
Ao cortamos o abacate vemos que a polpa o preenche quase inteiramente. Depois de retirada a polpa a casca, embora meio "durinha", apresenta uma pequena flexibilidade. A relativa rigidez permite a ilusão de que as duas metades de casca, pousadas sobre a mesa, ainda correspondam exatamente às metades da fruta recém-cortada. 
 
Essa correspondência, no entanto, já não existe mesmo na mesa, embora a gente não se dê conta disso. A ilusão acaba por esboroar-se quando se tenta delicadamente com as mãos , "fechando" o abacate oco. É manobra em que nunca se tem sucesso. 
 
A construção de velas por computador, embora utilíssima, está há muitos anos envolta numa mística perigosa, porquanto irreal. As velas cortadas e construídas com o auxílio do computador são sempre como o abacate na nossa história: o tecido é a casca e a modelagem eletrônica, a polpa da fruta. 
 
Uma vez no barco a vela será apenas "muito parecida" com o desenho que dela faz o programa de computador. Isso em si não é nenhum pecado grave. Acreditar que não haja diferenças, entretanto, é um erro e deve ser combatido. 
 
É evidente que quanto menor a flexibilidade dos tecidos mais perto do "projeto eletrônico" a vela, armada no barco, pode ficar. Mas quando se começa a usar a mesma técnica para fazer velas com materiais mais flexíveis ( Dacron, Mylar, Prolam, Pentex ) a perfeição do "projeto eletrônico" torna-se um ídolo com pés de barro. É bem possível que, um dia, todo e qualquer projeto de vela possa ter um supertratamento computacional que preveja as alterações de forma decorrentes de estiramentos, flexibilidade, plasticidade, etc. 
 
Entretanto, hoje em dia, apena uns poucos projetos de vela no mundo todo podem ter o privilégio de tal tratamento matemático. A maioria ainda depende inteiramente dos coonhecimentos acumulados nos bancos de dados da veleria ( que pode não ser eletrônico, aliás ). Para essa grande massa de velas de cruzeiro e de regata, os programas eletrônicos de corte de vela são apenas uma ferramenta útil e nada mais. Dar a esses programas o status de coisa imbatível foi um belo trabalho de marketing das velerias, mas não corresponde à verdade dos fatos. 
 
O velejador de cruzeiro, que compra velas de Dacron, Prolam e Nylon, deve ficar bem atento a essa história do abacate. O corte tri-radial (este sim, um grande avanço das velerias no século XX) reduz bastante os estiramentos nas velas do século XXI. Mais ainda, pode colocar a flexibilidade a jogar no time do velejador, e não contra ele. No entanto, em nenhum momento conseguirá fazer com que velas de cruzeiro sejam tão pouco flexíveis que se comportem diferentemente da casca do abacate. 
 
Depois da saída do computador, a vela terá vários formatos e, ainda como nos séculos anteriores, a forma final dependerá dos materiais empregados, da qualidade do layout dos tecidos, dos recursos de regulagem do barco e do olho clínico do "sail trimmer", esse infeliz tripulante que tem que velejar a maior parte do tempo com a cabeça virada para cima.

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