Velas de cruzeiro: pequenos pecados permitidos

As qualidades e defeitos das velas em geral - e das que temos a bordo, em particular - são quase sempre motivo de discussão acalorada nas mesas dos clubes. Os iatistas no topo das suas respectivas categorias insistem na boa qualidade e no pouco tempo de uso das velas. Afirmam que apenas deste modo se tem material para ganhar regatas. Os cruzeiristas esnobam os competidores, dizendo que têm velas de 20 anos que ainda estão ótimas. É inegável que qualquer vela vai se deformando e desgastando com o tempo. Incorpora, assim, pecados de gravidade diversa.

Veremos aqui que alguns pequenos pecados são aceitáveis em velas de cruzeiro. Também falaremos brevemente do modo com que podem ser parcialmente corrigidos.

Tecidos - A quase totalidade dos velejadores de cruzeiro usa velas de Dacron, nome genérico que engloba grande variedade de tecidos de poliéster para velas. Em todas a deformação se estabelece com o uso, em algumas mais lentamente, em outras com rapidez espantosa. O desgaste dos acabamentos e das costuras também vai se fazendo presente, e é visível. O encolhimento dos cabos das tralhas, o aumento dos comprimentos lineares e outras alterações geométricas (inclusive o aumento de volume) são menos visíveis. A perda de resistência do Dacron pela exposição aos raios UV é, por seu turno, quase invisível e, por isso mesmo, muito perigosa. A tendência é que o Dacron seja substituído, nos próximos anos, por tecidos de construção e química distintas. Mas ainda durante muitos anos as velas de Dacron estarão entre nós. Daí a importância em distinguir o que são pequenos pecados nessas velas e o que é tão grave que as torne inaceitáveis.

Cuidar dos pequenos pecados (e evitar os grandes) é especialmente importante, pois a maior parte dos nossos barcos de cruzeiro veleja com poucas velas a bordo.

Aumento do volume - A deformação da vela de Dacron, com aumento de volume, acontece muito mais rapidamente do que a maioria dos velejadores imagina. Mesmo em velas de layout tri-radial a deformação já compromete o rendimento em regata, passados apenas dois ou três anos. Essa deformação não cessa. No mau Dacron nem mesmo diminui de ritmo. Por isso, a vela "gordinha" de hoje será, fatalmente, a vela "obesa" de amanhã.

O aumento de volume prejudica o desempenho de contravento, tanto mais duramente quanto mais intensa for a deformação. Para muitos cruzeiristas isso não parece ter importância. Essa atitude muda, no entanto, quando se tenta realizar um longo percurso no contravento.

Foi o caso de quem levou seu barco do Rio de Janeiro para o Nordeste este ano, com intenção de participar da regata Recife - Fernando de Noronha. Os ventos de leste-nordeste chegaram amiúde a 35 nós e "fecharam a porteira" aos barcos com velas deformadas, incapazes de fazer um bom ângulo de contravento.

Eu diria que qualquer barco que não consiga orçar eficientemente com um vento aparente de 35 graus (ou menos) precisa tomar providências urgentes em relação ao volume das suas velas.

Desgastes gerais - O atrito contra amantilhos, volantes, brandais, púlpitos, postes, botes e tudo o mais que fica no caminho das velas de cruzeiro é freqüentemente tratado com desatenção. Quando ele acontece em áreas de concentração de esforços ou em áreas sujeitas a panejamento (valumas, esteiras) pode causar rupturas graves e deixar o velejador na mão.

Outro tipo de desgaste, mais perigoso porque menos evidente, é a perda de resistência do tecido nas proximidades de reforços pequenos ou mal desenhados. Nesses lugares a vela pode se romper quase sem aviso prévio - isso é comum logo acima do reforço do punho de escota do grande, algumas vezes após uma simples cambada em vento um pouco mais forte.

Também há desgastes nas bolsas de tala, algumas vezes tão pronunciados que o velejador acaba por não usar mais talas. É vício condenável porque diminui a vida da vela e a coloca em risco estrutural por panejamento excessivo.

Os danos causados pelo Sol - Em tese todos os barcos de cruzeiro possuem capas e protetores solares adequados para as suas velas. Na prática os abusos são muitos. A grande fica na retranca, como um frango no espeto: desprotegida e nua, torrando sob os raios solares. Ou então a capa é curta e o tope ou o punho de escota permanecem pegando sol. Os riscos destes maus tratos são imensos e nem sempre percebidos.

Nas genoas de enrolar há pecados associados à exposição solar. Embora os protetores solares costurados sejam bastante populares, muitos erros são cometidos, tanto de construção quanto de utilização. Há tapes UV estreitos, que deixam exposta na vela enrolada uma nesga de tecido que acaba por se estragar, colocando a vela em grave risco. Há velas em que o reforço dos punhos e o tape UV foram costurados de uma só passada. Quando enroladas, essas velas expõem as costuras dos reforços aos raios solares porque o tape não as recobre. É um grave problema que, felizmente, tem correção.

Há ainda o relaxamento completo, com velas deixadas enroladas sem qualquer proteção ou até mesmo enroladas com o tape UV voltado para dentro!

Alterações dimensionais diversas - À medida que envelhecem as velas esticam em quase todas as direções, ao passo que os cabos da testa e da esteira - e a bicha da valuma - encolhem para valer. O resultado é que, após alguns anos, fica muito difícil adriçar as velas de maneira adequada. Velas mal adriçadas ficam ainda mais gordas e acabam de arruinar o desempenho do barco.

A remissão dos pequenos pecados - É possível corrigir quase todos os pecados acima. Alguns de forma completa, outros parcialmente. Quando o Dacron ainda tem alguma qualidade residual, as velas podem ser "emagrecidas" com bastante sucesso. A grande ainda pode, adicionalmente, ganhar talas inteiriças que vão melhorar seu o rendimento e aumentar a longevidade. Os danos localizados podem ser corrigidos pontualmente. Mesmo erros construtivos de relativa gravidade podem ser corrigidos com engenhosidade.

Finalmente, as alterações dimensionais, sobretudo o aumento excessivo do comprimento da testa (gurutil), podem ser corrigidos com facilidade, melhorando muito o desempenho da vela.

O importante é que os pequenos pecados sejam encontrados e tratados corretamente já que podem, em conjunto, roubar o prazer de uma velejada ou mesmo por em risco a embarcação.

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