Construir ou comprar pronto, qual a melhor opção?

O oficial da Marinha Luiz Sergio Fernandes conta, em capítulos, o processo de construção de seu veleiro, o Baquã, de 33 pés, confeccionado todo em madeira por ele próprio, a partir do projeto de Roberto Mesquita Barros, o Cabinho.

Para quem deseja adquirir um veleiro, esta é, sem dúvida, a decisão mais difícil de tomar, pois envolve a consideração de vários fatores, bem como outras decisões tais como:

- Se for construir, optar pela construção amadora, aquela em que o próprio faz seu barco, ou contratar um estaleiro?

- Se optar pela construção amadora, vai contratar gente para determinadas fases da construção?

- E se optar por comprar pronto, é melhor comprar um novo? Ou um usado em bom ou em mau estado?

Qualquer que seja a opção escolhida, ela oferecerá vantagens e desvantagens, sendo que as vantagens para uma pessoa poderão ser desvantagens para outra. Tudo é muito pessoal. Para chegar a uma decisão satisfatória sugiro levar em consideração alguns fatores importantes.

Recursos financeiros

De quanto a pessoa dispõe? Pode dispor do valor necessário para uma compra à vista? Pode dispor de uma quantia mensal durante um longo período de tempo (cinco anos ou mais)? Pode obter um financiamento e, naturalmente, conseguir pagá-lo?

Tamanho do barco e material do casco

Esta escolha depende de onde se pretende navegar, com quantas pessoas a bordo e, para variar, dos recursos financeiros disponíveis. De nada adianta concluir que preciso de um veleiro com 50 pés e casco de aço ou alumínio, se não conseguir levantar os recursos financeiros necessários para sua compra ou construção e posterior manutenção.

Para quem pretende navegar em mares onde não vai encontrar gelo flutuando, as opções de fiberglass, strep-planking ou plyglass atendem satisfatoriamente a custos bem acessíveis na construção e, posteriormente, na manutenção. Saliento que se a opção for por um casco de aço ou alumínio, este deverá ser construído por empresa ou profissionais especializados, podendo a parte de acabamento ser feita de forma amadora.

Quanto ao tamanho, em princípio parece que quanto maior, melhor. Não é bem assim. Embora quanto maior, mais confortável, mais veloz, também será mais caro para construir, para manter, mais difícil para navegar, especialmente com poucas pessoas a bordo. Lembre-se que o custo de estadia em marinas, subidas e estadias em estaleiros são calculados em função do comprimento do barco.

Local para construção

Este é um fator muito importante quando a opção for a construção amadora. O ideal é que seja próprio e, se possível, próximo ao mar. Se for próximo da residência, melhor ainda. Nem sempre se consegue reunir todas essas características. Pode-se conseguir um galpão de um amigo gratuitamente ou mediante um aluguel. Apenas se deve ter o cuidado e deixar tudo esclarecido com o amigo, especialmente quanto ao longo tempo de ocupação desse espaço. Ter que remover o barco parcialmente construído para outro local, além de dispendioso, consome tempo. Cuidado especial se deve ter no caso de o local pertencer a uma empresa e esta vier a falir. O barco certamente fará parte da massa falida. Neste caso, ele somente poderá ser retirado mediante autorização judicial, que, se for obtida, certamente o será após muita demora, muitos aborrecimentos e gastos com custas judiciais e honorários advocatícios.

A família

Por se tratar de um projeto de longo prazo, a opção pela construção amadora não pode desprezar este fator. Será muito difícil uma esposa abdicar da companhia do marido nos fins de semana e feriados por 5, 6 anos ou mais, se não houver um envolvimento de todos desde o princípio. Não existindo esse compromisso, ou a construção se eterniza, podendo mesmo levar a uma desistência, ou surgirá a necessidade de gastos extras com advogado para divórcio e pensões alimentícias.

Os acidentes

Construir um barco requer trabalhar com ferramentas como serra circular, lixadeiras, tupias, plainas etc., que são ferramentas elétricas que “não perdoam” descuidos. Por se tratar de uma obra demorada é natural que no decorrer de todo esse tempo se cometam dois ou três descuidos, cujas conseqüências serão sempre traumáticas.

Estes descuidos podem ter várias causas. O mais comum costuma ser o cansaço. Portanto, se estiver cansado, faça serviços que não requeiram o manuseio de ferramentas perigosas. Fazer um trabalho pensando em outro ou conversando com outras pessoas também pode causar acidentes.

Mas, curiosamente, no meu entender, o maior fator de risco é o excesso de intimidade com a ferramenta. No início se trabalha cheio de apreensão e cuidado. O tempo passa e nos tornamos “craques “no seu manuseio. Ficamos íntimos da máquina. É neste momento que começamos a correr mais riscos, pois se passa a trabalhar com mais displicência.

Se quem vai construir seu barco tem uma profissão em que depende muito da sensibilidade e destreza das mãos, é bom repensar o projeto da construção amadora. Durante a construção de meu barco, que durou 5 anos e meio (fora o período entre a aquisição do projeto e o início da construção em si), tive dois acidentes. No primeiro quebrei a segunda falange do indicador direito em dois lugares. Como seqüela perdi o movimento entre a primeira e segunda falanges desse dedo, tendo ficado sem trabalhar no barco por seis ou sete semanas, o que, felizmente, em quase nada afetou minhas atividades profissionais. No segundo, quase decepei metade do polegar esquerdo, numa serra circular de bancada. Como seqüela, por ter cortado um tendão, perdi o movimento entre a primeira e a segunda falange, prejudicando a função de pinça que esse dedo exerce ao segurarmos alguma coisa. Fiquei quase três meses sem trabalhar no barco e cerca de dois sem poder exercer minhas atividades normais. Mas se eu fosse um cirurgião ou tivesse outra profissão que dependesse de uma grande sensibilidade e destreza nas mãos, certamente estaria impossibilitado de exercer meu trabalho a contento para o resto da vida.

Faça a sua escolha

Após uma avaliação dos fatores apontados é chegada a hora de avaliar as vantagens e desvantagens das várias opções para se obter um barco.

1. Comprando o projeto do barco

Se os recursos financeiros não constituem uma dificuldade, entendo que a melhor opção é contratar um bom projetista, discutir com ele o que se deseja para chegar a um projeto que atenda as suas necessidades e expectativas. Depois contratar a construção do barco num estaleiro conceituado e acompanhar pessoalmente todos os detalhes da construção.

Procedendo assim terá um barco projetado para suas necessidades, bem construído, com os detalhes a seu jeito e gosto. Também conhecerá cada detalhe de sua construção, de suas instalações, o que muito facilitará na hora de um reparo de emergência ou na sua manutenção normal.

Comprando um barco novo

Como os recursos financeiros normalmente são escassos para a grande maioria das pessoas, outras opções devem ser avaliadas. Uma idéia para quem os recursos financeiros constituem pequena dificuldade é comprar um barco novo. Será necessário desembolsar uma quantia expressiva de recursos em curto espaço de tempo ou financiar parte da construção. Os projetos serão os disponíveis, nos estaleiros, que normalmente não aceitam modificações, alegando diversas razões para isso. Ou se gosta ou não. Ou nos serve ou não. Em geral, pouco ou nada ficaremos conhecendo de sua construção e instalações. Em compensação, será adquirido um barco com comportamento conhecido, em curto espaço de tempo, sem “roubar“ tempo da família, cuja qualidade vai variar muito em face do projeto e reputação do estaleiro.

Comprando um barco usado

Pode-se optar pela compra de um barco usado. Este poderá estar em bom ou mau estado. Um barco usado, em mau estado de conservação, precisando portanto de grandes reparos, poderá ser uma boa opção, se o preço pedido for muito baixo, o tamanho e o material do casco atenderem às necessidades do adquirente, e se o adquirente tiver um local onde colocar o barco por um longo período (se possível sem precisar pagar).

É importante que o casco e o convés sejam de boa construção e, se possível, que o mastro, as catracas e o guincho, se tiver, estejam em bom estado. É aconselhável que o motor precise apenas de pequenos reparos. Caso contrário, muito dinheiro e tempo serão gastos para se ter um barco em condições no mínimo duvidosas.

A compra de um barco usado em bom estado, com tamanho, material do casco e lay-out interno adequados às necessidades e ao gosto do pretendente, aliados a um bom preço de ocasião, poderá ser uma excelente oportunidade de obtenção de um barco.

Pequenas reformas, instalação de alguns equipamentos adicionais ou substituição de alguns existentes por mais modernos, revisões na parte elétrica e hidráulica, se feitas pelo adquirente, poderão deixar o barco no estado de novo a um custo bastante atraente. Como principal desvantagem é necessário dispor de recursos para pagamento à vista ou em poucas parcelas.

Construindo seu próprio barco

Finalmente , apresento a opção de se construir o próprio barco. Se após todas as considerações esta for a opção escolhida, tem-se como vantagens um barco novo, com um projeto que nos atende, uma construção sabidamente segura e de alta qualidade, com os equipamentos que queremos, tudo isso “cabendo no nosso bolso”, temperado com o orgulho de dizer: “Fui eu que fiz.”

Quando fazemos nosso barco conhecemos cada detalhe, cada instalação. Fazemos tudo olhando o futuro, isto é, a manutenção. Assim temos um barco cuja manutenção poderá ser feita, sem problemas, pelo próprio dono. Isto evitará a contratação de alguém para fazer algo que não conhecemos, especialmente no meio náutico, onde prevalece a mentalidade de que quem tem barco é rico.

Ainda como vantagem, há o fato de não precisar de financiamento pois pode-se construir na medida em que entram os recursos. Como principal desvantagem cito o longo tempo de construção. Mesmo que não haja falta de recursos, o tempo será longo. Dependendo do tamanho e do tempo que semanalmente se possa dedicar à construção, não se deve contar com menos de 5 anos.

O tempo de construção poderá ser reduzido se for contratada mão-de-obra para as fases em geral muito demoradas. Por exemplo, num casco cuja técnica de construção seja strep-planking, pode-se ter duas equipes colocando os strips e alguém preparando o epóxi, o que reduzirá o tempo gasto (de 3 a 4 meses) pela metade. Lixar o casco e o convés também são fases em que se pode utilizar várias pessoas com sensível redução de tempo.

Ferramentas

Caso se opte pela construção amadora, várias ferramentas serão necessárias, enquanto outras serão desejáveis. Como necessárias cito:

- serra tico-tico

- plaina elétrica

- tupia manual

- lixadeiras orbital, de cinta e circular

- uma pequena serra circular de bancada

- grampos também conhecidos como “sargentos ”em grande número, 40 no mínimo, de diversos tamanhos

- esquadros

- compassos

- suta

- trena

- metros

Como ferramentas desejáveis, cito:

- um traçador (serra circular portátil)

- uma lixadeira para cantos

- prumos

- nível

- serra de esquadrejar

Chamo a atenção para um fato curioso. Quando trabalhar em peças em que a precisão das medidas constitui-se fator importante, use sempre o mesmo metro ou a mesma trena. Parece brincadeira, mas o tamanho dos centímetros varia de acordo com o metro utilizado. Tive esse problema pois usava um metro para tirar medidas no barco e outro na bancada para confeccionar as peças. Media no barco um espaço que precisava de uma peça em compensado, achando a medida de 40 cm. Na bancada, usando outro metro, cortava a peça. Ao colocá-la no lugar, estava maior ou menor. Inicialmente pensava que fosse erro meu. Como vivia errando, achei que algo estava acontecendo, e resolvi comparar os metros e trenas que estava usando. Para surpresa minha, uma peça com 50 cm medidos com um metro, tinha 49,7 cm quando medido com outro ou 50,5 cm quando medido por um terceiro.

Planejamento da construção

Ao adquirir um projeto, adquire-se também um roteiro de construção. O planejamento a que me refiro é mais abrangente e consiste em saber o que vai ser instalado a bordo em matéria de bombas, catracas, guincho, chaves elétricas, luzes etc. Isto será de grande valia para a obtenção de sensível redução de custos através de compras de oportunidade.

Para isso é importante tocar a obra tendo sempre uma reserva financeira. Esta reserva deve ser recomposta, na medida do possível, sempre que se faça uso dela.

Como exemplos reais cito a compra das catracas quando ainda faltavam 5 anos para terminar meu barco, a um preço equivalente ao praticado nos Estados Unidos. Comprei numa loja de material náutico um guincho por R$ 1.100 que, no Rio Boat Show de 2001, custava mais de R$ 4.000. Assim consegui comprar uma série de outros itens.

Mas estas compras somente são possíveis quando se conhece o que vai ser necessário, suas especificações e quantidades. A única exceção são os eletrônicos, devido à sua rápida obsolescência e constante queda de preços. Para isso, é igualmente importante conhecer os preços no Brasil e no exterior, freqüentar lojas de material náutico, obter catálogos, enfim, pesquisar incessantemente, pois só assim poderemos encontrar os bons negócios.

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